Resumo rápido: para mulheres de risco habitual, as sociedades médicas brasileiras recomendam mamografia anual a partir dos 40 anos. Quem tem histórico familiar importante ou mutações genéticas costuma começar antes, com um plano individualizado. E a ultrassonografia, sozinha, não substitui a mamografia.
Você sabia que o câncer de mama é o tipo de câncer mais frequente entre as mulheres brasileiras (sem contar os tumores de pele não melanoma)? Segundo o INCA, são estimados cerca de 78 mil novos casos por ano no Brasil entre 2026 e 2028. Ele também é a principal causa de morte por câncer entre as mulheres no país.
O número assusta, mas existe um outro lado dessa história: quando o câncer de mama é encontrado cedo, as chances de tratamento bem-sucedido são muito maiores — e, muitas vezes, com tratamentos menos agressivos. Por isso, a melhor arma contra ele continua sendo o diagnóstico precoce.
Neste Outubro Rosa, eu quero explicar de um jeito direto:
- quando começar a mamografia e com que frequência fazer,
- quem precisa começar antes dos 40 anos,
- qual é o papel (e o limite) da ultrassonografia,
- e quais sinais pedem avaliação, independentemente da idade.
O que é rastreamento — e por que ele é diferente de investigar um sintoma
Rastrear é procurar a doença em mulheres sem nenhum sintoma, antes que ela dê sinais. O objetivo é encontrar tumores pequenos, às vezes ainda impossíveis de sentir ao toque, quando o tratamento costuma ser mais simples e as chances de cura são maiores.
Isso é diferente de investigar uma queixa. Se você sente um nódulo ou nota alguma alteração na mama, não se trata mais de rastreamento: é hora de uma avaliação médica, sem esperar a data do próximo exame de rotina.
Mamografia: o exame que muda o desfecho
A mamografia é uma radiografia das mamas, feita com compressão por alguns segundos. Ela consegue mostrar alterações muito pequenas, como microcalcificações, que podem ser o primeiro sinal de um câncer inicial.
E aqui está o ponto mais importante deste texto: a mamografia é o único exame de rastreamento que comprovadamente reduz a mortalidade por câncer de mama. Essa redução foi demonstrada em grandes estudos populacionais ao longo de décadas — e é por isso que ela é a base de todas as recomendações.
Quando disponível, a tomossíntese (conhecida como "mamografia 3D") pode ser usada no lugar da mamografia convencional. Ela é uma evolução da mesma técnica, não um exame diferente.
Quando começar: mulheres de risco habitual
Para mulheres de risco habitual — ou seja, sem os fatores de risco aumentado que vou listar mais abaixo —, a FEBRASGO, a Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) e o Colégio Brasileiro de Radiologia (CBR) recomendam:
- mamografia anual a partir dos 40 anos;
- manter o rastreamento anual até os 74 anos;
- a partir dos 75 anos, decidir caso a caso, considerando a saúde geral e a expectativa de vida.
"Mas eu ouvi falar em 50 anos, a cada dois anos…"
Você não ouviu errado — e vale entender a diferença. O Ministério da Saúde define a estratégia do SUS, pensada para a população como um todo. Desde setembro de 2025, essa orientação é:
- 50 a 74 anos: rastreamento ativo, com mamografia a cada dois anos;
- 40 a 49 anos: mamografia disponível no SUS mesmo sem sintomas, após conversa com o profissional de saúde sobre benefícios e limitações do exame.
As sociedades médicas, por sua vez, olham para o benefício individual de cada mulher — e os dados mostram que uma parcela importante dos casos aparece antes dos 50 anos. Por isso recomendam começar aos 40 e repetir todo ano.
Na prática, as duas orientações concordam no essencial: a partir dos 40 anos, a mamografia já faz parte da conversa. O ritmo ideal para você é definido na consulta.
Algumas mulheres precisam começar antes
Nem todo mundo tem o mesmo risco. São consideradas de maior risco as mulheres que têm:
- mãe, irmã ou filha com câncer de mama antes dos 50 anos;
- histórico familiar de câncer de mama bilateral (nas duas mamas);
- casos de câncer de mama em homens na família;
- múltiplos casos de câncer de mama ou de ovário na família;
- mutações genéticas conhecidas, como BRCA1 e BRCA2 (na própria paciente ou em parente próximo);
- radioterapia no tórax antes dos 30 anos (por exemplo, para tratamento de linfoma);
- história pessoal de câncer de mama ou de algumas lesões de risco encontradas em biópsias anteriores.
Nesses casos, a avaliação deve ser individualizada, e o rastreamento geralmente começa a partir dos 30 anos — ou até antes, conforme a orientação médica. Além da mamografia, pode ser indicada a ressonância magnética das mamas, o exame complementar de escolha para mulheres de alto risco. Em algumas situações, também cabe o encaminhamento para aconselhamento genético.
💡 Dica: conversar sobre a sua história familiar ainda antes dos 40 — idealmente por volta dos 30 anos — é o que permite descobrir se você se encaixa em algum desses grupos a tempo de começar o rastreamento no momento certo.
E a ultrassonografia?
A ultrassonografia das mamas é muito utilizada e tem valor — mas ela não substitui a mamografia e não deve ser feita isoladamente como exame de rastreamento de rotina.
O motivo é simples: o ultrassom não enxerga bem as microcalcificações, que podem ser o primeiro sinal de alguns tumores iniciais, e não tem a mesma comprovação de redução de mortalidade. Fazer só o ultrassom pode dar uma falsa sensação de segurança.
A ultrassonografia é um exame complementar, indicado em situações específicas, como:
- avaliar um achado da mamografia;
- investigar nódulos e cistos;
- complementar o rastreamento em algumas mulheres com mamas densas (quando o tecido mamário é mais "fechado" e dificulta a leitura da mamografia);
- em algumas pacientes de alto risco, junto com os outros exames.
Em resumo: a mamografia é a base; o ultrassom é um aliado — nunca o substituto.
E o autoexame?
Conhecer o próprio corpo é sempre bem-vindo: quem sabe como as próprias mamas costumam ser percebe mais facilmente quando algo muda. Mas o autoexame não substitui a mamografia, porque os tumores que ele detecta geralmente já são maiores do que os que a mamografia consegue encontrar.
Fique atenta e procure avaliação, em qualquer idade, se notar:
- um nódulo (caroço) novo na mama ou na axila;
- retração (repuxamento) da pele ou do mamilo;
- saída de secreção pelo mamilo, principalmente com sangue;
- vermelhidão, inchaço ou aspecto de "casca de laranja" na pele da mama;
- mudança recente no formato ou no tamanho de uma das mamas.
A maioria dessas alterações tem causa benigna — mas todas merecem ser avaliadas.
Como se preparar para a mamografia
Algumas dicas simples ajudam o exame a ser mais confortável e mais preciso:
- se você ainda menstrua, prefira fazer o exame fora do período pré-menstrual, quando as mamas costumam estar menos sensíveis;
- evite desodorante, talco ou cremes nas mamas e axilas no dia do exame, porque podem gerar imagens que confundem a leitura;
- leve os exames anteriores: a comparação com mamografias antigas ajuda muito o radiologista;
- se você tem prótese de silicone, avise a equipe — existem técnicas específicas para avaliar a mama com prótese.
Neste Outubro Rosa, converse sobre o seu plano
Não existe uma regra única que sirva para todas as mulheres. A idade de início, a frequência e a necessidade de exames complementares dependem da sua história: idade, histórico familiar, exames anteriores e características das suas mamas.
É um bom momento para agendar uma consulta se você:
- tem 40 anos ou mais e não sabe quando foi sua última mamografia (ou nunca fez);
- tem casos de câncer de mama ou de ovário na família e quer saber se precisa começar antes;
- fez apenas ultrassom nos últimos anos e quer organizar o rastreamento do jeito certo;
- recebeu um resultado e quer entender com calma o que ele significa;
- notou alguma alteração nas mamas.
Converse com sua ginecologista ou mastologista e descubra qual é a estratégia de rastreamento ideal para você. Diagnóstico precoce salva vidas.
Perguntas frequentes
Com que idade devo começar a fazer mamografia?
Para mulheres de risco habitual, as sociedades médicas brasileiras (FEBRASGO, Sociedade Brasileira de Mastologia e Colégio Brasileiro de Radiologia) recomendam mamografia anual a partir dos 40 anos. Mulheres com maior risco — por histórico familiar importante ou mutações genéticas como BRCA1 e BRCA2 — geralmente começam antes, a partir dos 30 anos ou até mais cedo, com um plano individualizado.
O ultrassom das mamas substitui a mamografia?
Não. A ultrassonografia é um exame complementar: ajuda a esclarecer achados da mamografia, avaliar nódulos e cistos e, em algumas situações, como mamas densas ou alto risco, pode ser somada ao rastreamento. Feita sozinha, ela não substitui a mamografia, que é o exame com redução de mortalidade comprovada.
Quem tem prótese de silicone pode fazer mamografia?
Pode e deve. Avise a equipe no momento do exame: existem incidências específicas que deslocam a prótese para avaliar melhor o tecido mamário. A prótese não é motivo para adiar ou trocar a mamografia por outro exame, salvo orientação médica.
A mamografia dói? A radiação faz mal?
A compressão das mamas pode causar um desconforto rápido, que dura poucos segundos. Fazer o exame fora do período pré-menstrual costuma deixar tudo mais tranquilo. A dose de radiação é baixa, e o benefício de detectar o câncer cedo supera muito esse risco nas mulheres com indicação de rastreamento.
Minha última mamografia foi normal, mas senti um nódulo. Posso esperar o próximo exame?
Não. O rastreamento é para quem não tem sintomas. Diante de um nódulo novo, retração da pele ou do mamilo, secreção pelo mamilo (principalmente com sangue), vermelhidão persistente ou um caroço na axila, procure avaliação médica, independentemente da idade ou da data da última mamografia.
Referências
- INCA – Instituto Nacional de Câncer. Estimativa 2026: incidência de câncer no Brasil (triênio 2026–2028). Rio de Janeiro: INCA, 2025.
- Urban LABD, Chala LF, Paula IB, et al. Breast cancer screening: updated recommendations of the Brazilian College of Radiology and Diagnostic Imaging, Brazilian Breast Disease Society, and Brazilian Federation of Gynecological and Obstetrical Associations. Radiologia Brasileira, 2023;56(4):207–214.
- Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 626/2025-CGCAN/DECAN/SAES/MS — atualização das recomendações para o rastreamento do câncer de mama no SUS. Brasília, set. 2025.
- INCA – Instituto Nacional de Câncer. Diretrizes para a detecção precoce do câncer de mama no Brasil. Rio de Janeiro: INCA, 2015.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta com um profissional de saúde. Em caso de sintomas, procure seu ginecologista ou mastologista.
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