Saúde da Mulher

    Você ainda precisa fazer Papanicolau todo ano?

    3 de maio, 20268 min
    Você ainda precisa fazer Papanicolau todo ano?

    Se você cresceu ouvindo que "tem que fazer Papanicolau todo ano", você não está sozinha. Por décadas, essa foi a regra mais conhecida do consultório ginecológico. A boa notícia é que a ciência avançou — e, com ela, a forma como cuidamos da saúde do colo do útero.

    Hoje, graças ao melhor entendimento sobre o HPV e à chegada de exames mais precisos, o rastreio mudou de cara. Ficou mais sensível, mais confiável e, em geral, mais espaçado. Tudo isso sem abrir mão da proteção contra o câncer de colo do útero — pelo contrário.

    Neste texto, eu vou explicar de um jeito direto:

    • o que é o HPV e por que ele importa,
    • qual o papel atual do Papanicolau,
    • o que muda com a pesquisa de HPV (DNA-HPV),
    • e o que dizem as diretrizes brasileiras sobre a frequência ideal do exame.

    Esse conteúdo é pra você, mulher (ou pessoa com colo do útero) em idade reprodutiva e/ou com vida sexual ativa, que quer entender o que está por trás da mudança e fazer escolhas conscientes sobre a sua saúde.

    HPV e câncer de colo do útero: o que importa saber

    Vamos começar pelo começo. O HPV é uma das infecções sexualmente transmissíveis mais comuns do mundo — tão comum que entrar em contato com o vírus em algum momento da vida sexualmente ativa é mais regra do que exceção. Um estudo nacional da Fiocruz com o Ministério da Saúde, o POP-Brasil, encontrou o vírus em mais da metade das pessoas jovens sexualmente ativas avaliadas no país.

    Antes que isso assuste: na maioria das vezes, o próprio sistema imune dá conta da infecção sozinho. Cerca de 9 em cada 10 infecções por HPV se resolvem sem tratamento, muitas vezes sem que a pessoa nem perceba que foi infectada.

    O risco aparece numa minoria de casos — quando alguns tipos específicos do vírus, os chamados oncogênicos ou de "alto risco", ficam no corpo por anos. Quando isso acontece, eles podem causar alterações nas células do colo do útero, e essas alterações, sem acompanhamento, podem virar câncer ao longo de muito tempo (em geral, mais de uma década).

    Dois desses tipos merecem atenção especial: o HPV 16 e o HPV 18, responsáveis pela maior parte das lesões precursoras e dos casos de câncer de colo do útero.

    É exatamente por isso que existe o rastreio: para encontrar quem está em risco bem antes de a doença aparecer.

    E o Papanicolau, perdeu importância?

    Não. O Papanicolau (também chamado de citologia ou exame preventivo) é um dos maiores avanços da medicina preventiva — salvou milhões de vidas no mundo todo. Mérito histórico inegável.

    O que o exame faz é simples: coleta células do colo do útero e avalia, no microscópio, se há alterações sugestivas de lesão.

    A questão é que, comparado a um exame mais novo, o Papanicolau tem duas limitações importantes. Primeiro, ele "enxerga" a alteração depois que ela já está acontecendo. Segundo, ele tem menor sensibilidade — ou seja, pode deixar passar parte das lesões que realmente existem.

    Não é um exame ruim. Ele só ganhou um irmão mais novo, mais sensível e mais precoce.

    Pesquisa de HPV (DNA-HPV): o exame que entrou pra ficar

    A pesquisa de HPV — também chamada de teste de DNA-HPV oncogênico, teste molecular ou PCR para HPV — funciona de outro jeito. Em vez de procurar alterações nas células, ela procura o próprio vírus.

    Isso muda o tempo do jogo. Em vez de esperar a alteração celular acontecer, o teste mostra se o agente que pode causar essa alteração está presente. O resultado é um exame mais sensível e mais precoce.

    Muitas versões fazem ainda algo chamado genotipagem, que diferencia se o HPV detectado é dos tipos 16 ou 18 (mais agressivos) ou de outros tipos oncogênicos.

    E aqui vem o ponto que mudou tudo: quando o teste de DNA-HPV é negativo, ele tem altíssimo poder de tranquilização. Sem o vírus circulando, o risco de desenvolver câncer de colo do útero nos anos seguintes é baixíssimo. Por isso, com um resultado negativo, é seguro espaçar o rastreio sem perder a proteção.

    "Então, na prática, com que frequência eu faço o exame?"

    A pergunta tem resposta — e ela vem das novas Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer de Colo do Útero, aprovadas pelo Ministério da Saúde em 2025, com apoio da FEBRASGO. O modelo segue uma tendência internacional convergente, alinhada com a OMS, com o ACOG (sociedade americana de ginecologia e obstetrícia) e com a FIGO (federação internacional).

    Em resumo, é assim que o rastreio funciona hoje:

    • Faixa etária: entre 25 e 64 anos.
    • Antes dos 25 anos: o teste de DNA-HPV não é indicado, porque infecções por HPV nessa fase são muito comuns e tendem a ser eliminadas naturalmente.
    • Quando o teste de DNA-HPV é negativo: pode-se repetir em 5 anos, com tranquilidade.
    • Quando o teste detecta HPV 16 ou 18: indica-se a colposcopia — exame que avalia o colo em detalhes — mesmo sem alteração no Papanicolau.
    • Quando detecta outros tipos oncogênicos: faz-se a citologia reflexa (Papanicolau na mesma amostra). Se vier normal, em geral o exame é repetido em 1 ano. Se vier alterada, segue-se para a colposcopia.

    ⚠️ Atenção: essas recomendações se aplicam ao rastreio populacional — mulheres saudáveis, sem condições especiais. Quem teve lesão prévia, está imunossuprimida, está gestante ou tem fatores específicos pode precisar de uma orientação diferente. Nenhuma regra única substitui a sua consulta.

    "Mas eu sempre fiz Papanicolau todo ano…"

    Aí vai a verdade desconfortável: o "todo ano" virou tradição mais por hábito do que por evidência. Para mulheres com rastreio em dia e sem alterações, a recomendação atual não é mais essa.

    "Mais do que repetir uma rotina aprendida há vinte anos, vale construir, com a sua ginecologista, um plano que faça sentido para a sua história."

    Isso não significa que a sua consulta ginecológica também passe a ser de cinco em cinco anos — pelo contrário. A consulta anual continua valendo. Ela só é muito mais ampla do que o Papanicolau:

    • anticoncepção e planejamento reprodutivo,
    • saúde de mama,
    • vacinação (incluindo HPV, quando indicado),
    • saúde óssea,
    • climatério e suas mudanças,
    • saúde mental,
    • e qualquer sintoma que esteja te incomodando.

    O que mudou foi o calendário de um exame específico, não o cuidado contínuo com a sua saúde.

    "E se vier alterado? E se eu testar positivo pra HPV?"

    Respira. Resultado alterado quase nunca significa câncer.

    O caminho mais comum, quando algo aparece no exame, costuma seguir esse roteiro:

    1. Avaliar o tipo de alteração ou o tipo de vírus (16, 18 ou outros).
    2. Fazer a citologia reflexa, se ainda não tiver sido feita.
    3. Em alguns casos, encaminhar para a colposcopia, que permite olhar o colo do útero em detalhe e direcionar uma biópsia, se necessário.
    4. Acompanhar em prazos definidos — muitas vezes basta repetir o exame em alguns meses ou em 1 ano para confirmar que o organismo eliminou o vírus por conta própria.

    O grande objetivo do rastreio é exatamente esse: encontrar qualquer coisa cedo, com tempo de sobra para resolver com calma.

    Vacina HPV e rastreio: por que um não substitui o outro

    Na prática, as duas frentes se somam: enquanto a vacina reduz o risco diante dos tipos de HPV que ela cobre, o rastreio encontra alterações no colo do útero cedo — inclusive em situações em que a proteção vacinal não é total. Por isso, vacina e rastreio se complementam, em vez de se substituírem.

    A vacina é uma das ferramentas mais eficazes de prevenção do câncer de colo do útero. O ideal é aplicá-la antes do início da vida sexual, mas, dependendo do caso, a indicação pode se estender — vale conversar com a sua ginecologista para saber se você ainda se beneficia.

    Mesmo assim, quem foi vacinada precisa manter o rastreio. Por três motivos:

    • a vacina não cobre 100% dos tipos de HPV oncogênicos,
    • o efeito depende da idade em que foi feita e da exposição prévia ao vírus,
    • e o rastreio identifica também situações que vão além dos tipos cobertos pela vacina.

    Em resumo: vacinar protege, rastrear detecta. Os dois juntos é que fazem a diferença ao longo da vida.

    Quando agendar uma consulta

    É um bom momento para vir conversar se você:

    • não sabe quando foi seu último Papanicolau ou teste de HPV (ou nunca fez),
    • quer organizar um calendário de rastreio que faça sentido pra você,
    • recebeu um resultado alterado e quer entender com calma o que ele significa,
    • está com sintomas que merecem investigação — sangramento fora do ciclo, sangramento depois da relação sexual, corrimento atípico, dor pélvica persistente,
    • ou tem dúvidas sobre vacina HPV (suas, das suas filhas ou filhos).

    A medicina caminha rápido, e o seu cuidado merece acompanhar essa caminhada. O melhor rastreio é aquele desenhado junto com a sua ginecologista — pensando na sua história, não na regra geral.

    Perguntas frequentes

    Preciso fazer Papanicolau todo ano?

    Para a maioria das mulheres com rastreio em dia e sem alterações, não. Quando o rastreio é feito com o teste de DNA-HPV e o resultado é negativo, a diretriz brasileira recomenda repetir em 5 anos. A frequência ideal, no entanto, é sempre individualizada — quem tem histórico de alterações, imunossupressão ou outros fatores de risco pode precisar de acompanhamento mais frequente.

    Qual a diferença entre Papanicolau e teste de HPV?

    O Papanicolau analisa as células do colo do útero em busca de alterações já presentes. O teste de DNA-HPV detecta diretamente o material genético do vírus, antes mesmo de surgirem alterações celulares. Por ser mais sensível, o teste de HPV passou a ser o método primário recomendado pelas diretrizes brasileiras e por sociedades internacionais.

    Se o teste de HPV der negativo, quando posso repetir o exame?

    Para mulheres dentro da faixa de rastreio (25 a 64 anos) e sem fatores de risco específicos, a recomendação no Brasil é repetir em 5 anos. Esse intervalo é seguro porque o valor preditivo negativo do teste é muito alto. O cenário individual deve sempre ser confirmado em consulta.

    O HPV sempre leva a câncer de colo do útero?

    Não. A grande maioria das infecções por HPV é eliminada pelo próprio sistema imune e nunca causa qualquer doença. Apenas uma minoria — geralmente ligada à persistência de tipos como o HPV 16 e o 18 — pode evoluir para lesões precursoras e, eventualmente, para câncer, em um processo que costuma levar muitos anos. É exatamente por isso que o rastreio funciona.

    A vacina contra o HPV substitui o exame de rastreio?

    Não. A vacina é uma ferramenta de prevenção primária extremamente importante e reduz significativamente o risco de câncer de colo do útero, mas não cobre todos os tipos do vírus. Mesmo quem foi vacinada precisa manter o rastreio conforme a idade e a recomendação da sua ginecologista.

    Referências

    • Ministério da Saúde. Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer de Colo do Útero – Parte I: Rastreamento organizado utilizando testes moleculares para detecção de DNA-HPV oncogênico. Brasília, 2025. Aprovada pela Portaria conjunta SAES/SECTICS nº 13, de 29/07/2025. Disponível em: gov.br/saude/pt-br/assuntos/pcdt/r/rastreamento-cancer-do-colo-do-utero
    • FEBRASGO – Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. FEBRASGO apoia novas diretrizes para o rastreamento do câncer de colo do útero. Dez. 2024.
    • Conitec – Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS. Testagem molecular para detecção de HPV e rastreamento do câncer do colo do útero – Relatório de recomendação, 2024.
    • Fiocruz / Ministério da Saúde. Estudo POP-Brasil: estudo epidemiológico sobre a prevalência nacional de infecção pelo HPV.
    • ACOG – American College of Obstetricians and Gynecologists. Updated Cervical Cancer Screening Guidance, 2026.
    • FIGO – International Federation of Gynecology and Obstetrics. Bhatla N. et al. Cancer of the cervix uteri: 2025 update. International Journal of Gynecology & Obstetrics, 2025.
    • OMS – Organização Mundial da Saúde. WHO guideline for screening and treatment of cervical pre-cancer lesions for cervical cancer prevention, 2021.
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